Tempo de Solidão

"Tempo de solidão, tempo de exílio."

quarta-feira, abril 14, 2004

Remorso

O sentimento de hoje é de remorso.

A espera naquele cais atulhado alongava-se. Ao meu lado, as pessoas multiplicavam-se. ao fundo, um casal amava-se em silêncio, diluído na turba. Impaciência. Uns minutos mais tarde, minutos que pareceram uma eternidade ou não estivesse eu acometido da minha habitual e tola pressa, eis que chega o transporte, atrasado e insultuoso.

Ao meu lado esquerdo, um homem diz-me qualquer coisa. "Já aí vem.", murmura, com um sorriso. Viro-me para ele e creio dizer qualquer coisa. É o que basta para que o homem, uma pessoa com os seus trinta anos, entabule conversa comigo, alegre e descontraidamente, mas também de trejeitos ligeiramente forçados e, francamente, incómodos. Era quase como se estivesse ansioso por falar com alguém, e eu tivesse sido a primeira pessoa a olhar para ele.

Se ao princípio não me importei com a troca de palavras, fiquei menos tolerante quando percebi que ele não me largava. O pobre não estava a fazer nada de mal, não me estava a incomodar, em bom rigor, e as suas perguntas eram de pequenas consequências.

Contudo, a sua presença incomodou-me. Após uns minutos de resposta monossilábica e olhares permanentemente desviados, o pobre homem fartou-se e desapareceu sem dizer uma palavra assim que a sua paragem chegou, ele que antes tinha estado a tentar conversar tão alegremente comigo. Era visível que tinha ficado aborrecido.

Eis que olho então para esses triviais acontecimentos e que contacto que sinto ligeiros, mas sinceros, remorsos pela maneira como falei ao pobre homem. Acabava por ser um fulano simpático, embora com todo o desespero que se atribui aqueles que procuram a todo o custo um momento de comunicação com outra pessoa. E realmente, quem os pode censurar, se esta vida consegue ser tão entorpecedora e distante? Devo confessar que muitas vezes já me apeteceu entabular despreocupadamente conversa com totais desconhecidos. Só porque me apetecia. Provavelmente porque queria falar com alguém. Alguém a mais.

Isto é, todavia, uma digressão da qual tenho de regressar. O que por agora é importante que fique assente é o facto de eu ter praticamente enxotado o pobre conversador. As lamentações acometeram-me mais tarde, quando me apercebi que tinha feito exactamente o mesmo que tanto criticava no mundo à minha volta: fechado os olhos à vida que em meu redor pululava.

Quem sabe se ele não teria coisas interessantes para dizer? Quem sabe se não seria um completo idiota? Quem sabe se ele não me poderia ensinar qualquer coisa, maravilhar com as suas palavras? Quem sabe? Eu não, pois escolhi não saber.

É isso que me aflige. Eu que pretendo ser tão atento, eu que aspiro a ser tão sensível e humanista terreno, eu que me orgulho de saber ver a beleza escondida a muitos outros no mais singelo e claro rosto, eu acabei por me comportar exactamente da forma oposta à que professo. Naquele momento em que desprezei o homem, o egoísmo tomou conta da minha alma. E eu contrariei-me profundamente, sem sequer ser honesto comigo próprio.

É por isso que sinto remorsos. Não tanto pela conversa recusada, mas pelo que a minha atitude representa. Eu acredito em todas as vozes de todos os seres vivos, acredito que cada um é um indivíduo especial e, na medida do possível, único. Acredito ser possível achar belo e imaculado aquilo que é alvo de escárnio de todos os restantes, tombar de profundos amores pelo que é odiado. Creio que todos têm algo interessante a dizer. Espero pelo momento em que a voix perdue des hommes nos será restaurada.

Mas até eu conseguir provar isso a mim próprio, estas palavras serão tão ocas e perversas quanto todos os actos que eu não pratiquei.